segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O Olhar Psicopedagógico



Por Rosanita Moschini Vargas

O olhar psicopedagógico baseia-se em uma análise horizontal e o vertical, dentro do processo investigativo, bem como, como nos diz Pain "possibilidade pelo entre jogo de quatro estruturas básicas, que estão sempre presentes no processo de aprendizagem: Organismo; Corpo; Estrutura cognitiva, ou inteligência; Estrutura desejante."
É preciso observar o que está em jogo, buscando compreender fatores que podem estar interferindo no aprendizado. Lembrando que estas estruturas fazem parte de um todo e, portanto, uma pode afetar outra, haverá possibilidade de entendermos a modalidade de aprendizagem e o que está inserido nela.

O principal diferencial da escuta e do olhar psicopedagógico em relação a outros profissionais é a capacidade de um olhar atento e reflexivo, não apenas em busca de diagnóstico (rótulos e afins) e sim em busca de possibilidades. É possível ver além da queixa e tentar olhar o que há de sublime... Nas entrelinhas. 

As estruturas de aprendizagem propostas por Sara Pain - Organismo; Corpo; Estrutura cognitiva ou inteligência; Estrutura desejante - estão vinculadas entre si, uma vez que o sujeito é um todo e não fragmentado. O processo de aprendizagem se estabelece frente a essas estruturas, apoiado nelas. São necessárias condições externas e internas para que se estabeleça a aprendizagem. (PAIN, 1996). Essas condições são fundamentais para a efetivação da aprendizagem.

As condições externas estão vinculadas ao meio, e ao que esse meio representa e interfere no sujeito. Como nos diz Pain (1985), é comum a criança com problemas de aprendizagem apresentar um déficit real do meio devido a confusão de estímulos, à falta de ritmo ou à velocidade com que são brindados ou à pobreza ou carência dos mesmos. Esse sujeito durante o tratamento, é favorecido frente um material de qualidade, fácil de manipular, que contemple suas necessidades.

No que se refere as condições internas, Pain (1985) nos diz:

"As condições internas da aprendizagem fazem referência a três planos estreitamente inter-relacionados. O primeiro plano é o corpo como infra-estrutura neurofisiológica ou organismo, cuja integridade anátomo-funcional garante a conservação dos esquemas e suas coordenações, assim como também a dinâmica da sua disponibilidade na situação presente; mas também consideramos aqui o corpo como mediador da ação e como base do eu (yo) formal. É em função do corpo, que se é harmonico ou rígido, compulsivo ou abúlico, ágil ou lerdo, bonito ou feio, e com esse corpo se fala, se escreve, se tece, se dança, resumindo, é com o corpo que se aprende. As condições do mesmo, sejam constitucionais, herdadas ou adquiridas, favorecem ou atrasam os processos cognitivos e, em especial, os de aprendizagem." (p. 22)

Assim, percebe-se o quanto o organismo está vinculado com as possibilidades de aprendizagem.

No caso da estrutura cognitiva da aprendizagem, está vinculada uma coordenação de esquemas "num âmbito particular, prático, representativo, conceitual e concordante" (PAIN, 1985) em que haja equilíbrio, obtido a partir de regulações, descentrações intuitivas ou operações lógicas, práticas ou formais.

A estrutura desejante, está ligada a dinâmica do comportamento, em que, no ponto de vista dinâmico é o efeito do comportamento, o que conserva como disposição mais econômica e equilibrada para responder a uma situação definida.

De acordo com Pain (1985),
(...) a aprendizagem será tanto mais rápida quanto maior seja a necessidade do sujeito, pois a urgência de compensação dará mais relevância ao recurso encontrado para superá-la. Mas salvo, quando se trata de aprendizagens práticas e instrumentais, é difícil que se dê na aprendizagem humana uma necessidade primária reconhecida interoceptivamente."(p. 23)

Temos como exemplo as motivações, sejam primárias ou secundárias. As primárias quando ligadas ao ego e as secundárias vinculadas do olhar do outro, seja por reconhecimento alheio, reprovação ou afeto.

Com isto, é preciso observar o que está em jogo, tendo ciência do que pode estar interferindo em relação ao aprendizado. Lembrando que o ser humano faz parte de um todo e que uma estrutura pode afetar outra, só assim haverá possibilidade de entendermos a modalidade de aprendizagem e o que está inserido nela.

Portanto, o olhar atento e reflexivo em relação ao sintoma, o sentido/significado desse sintoma para a família, motivo da consulta, história vital... bem como o uso de testes pertinentes a prática da psicopedagogia  favorecem a avaliação dessas estruturas e permitem ao psicopedagogo favorecer que o sujeito aprenda a aprender dentro de suas potencialidades e possibilidades.




Diagnóstico psicopedagógico: características básicas
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Diagnóstico psicopedagógico é a maneira pela qual o profissional investiga o que pode estar impedindo a aprendizagem ou dificultando-a.

A relação que se dá entre sujeito x conhecimento é avaliado durante o diagnóstico psicopedagógico: como aprende? o que aprende? por que aprendeu isso e não consegue aprender aquilo? Frente a essas perguntas elabora-se as hipóteses.

É importantante destacar que por ser uma investigação, não se pretende enquadrar o sujeito em determinadas categorias nosológicas e sim, compreender a sua forma de aprender e os possíveis desvios que estão ocorrendo no processo.

O diagnóstico psicopedagógico pode ser pautado de acordo com modelos teóricos, seriam eles: psicanalítico (considerando as contribuições da psicanálise para o campo da psicopedagogia) e psicogenético(considerando as contribuições da epistemologia genética para o campo da psicopedagogia).

Durante o processo de diagnóstico o psicopedagogo estará desenvolvendo uma teoria frente ao modo pelo qual o sujeito se apropria dos conhecimentos escolares. "Sujeito este, que, sem a menor dúvida, estabelece uma relação que lhe é sua, singular, com os objetos, relação esta permeada pelo desejo e por seu mundo fantasmagórico."

Por ser um processo científico, o diagnóstico pesicopedagógico se dá a partir de hipóteses que poderão ser ou não confirmadas no decorrer da intervenção psicopedagógica subsequente.

O diagnóstico psicopedagógico é um processo que vai nos levar a um conhecimento sobre o processo de aprendizagem do sujeito. Este conhecimento é hipotético. Ao se terminar o diagnóstico, só temos hipóteses de trabalho, não temos certezas. O Diagnóstico é um levantamento de hipóteses.

As causas assinaladas nas hipóteses, são mostradas através de uma queixa.
A queixa é o motivo da consulta, a partir dela o psicopedagogo começa a levantar hipóteses.

Para a identificação do problema, que é o centro de toda a pesquisa, é necessário um olhar atento, reflexivo e límpido do psicopedagogo. Portanto, uma observação direta é fundamental. O olhar é a base da observação. Para que se dê efetivamente o olhar, é necessário ao psicopedagogo: silenciar, escutar, ver, escrever e participar.

Segundo Alícia Fernández, os primeiros passos de um diagnóstico são dados pelas ações de escutar-olhar.

Com isso, conseguir olhar o entre jogo, o que permeia as estruturas de aprendizagem, o que está por trás, nos bastidores... descortinar para ver... ver para captar, dar zoom e seguir em frente, buscando as possibilidades. Desconstruindo para construir. Proporcionando o espaço e o tempo pertinente para a aprendizagem.

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